Introdução
Ronaldo está reinventando a produção e a distribuição jornalística nas periferias e favelas, utilizando a tecnologia para promover o letramento midiático antirracista no Brasil.
A nova ideia
O jornalista, pesquisador e educomunicador Ronaldo Matos enfrenta o desafio de atuar em um mundo hiperconectado, mas ainda marcado pelo baixo letramento digital e midiático das populações empobrecidas no Brasil. Ele reconhece que o problema central não está apenas no acesso à informação, mas também na capacidade de compreendê-la, analisá-la criticamente e utilizá-la de forma eficaz. Seu trabalho destaca a importância de reduzir as desigualdades digitais e informacionais que afetam os hábitos de consumo de informação das populações de baixa renda, para que os benefícios do uso da tecnologia aplicada ao jornalismo e ao letramento midiático se estendam para além da simples compreensão das plataformas, mas promovam também o desenvolvimento de habilidades digitais, ampliando a mobilidade social, fortalecendo a equidade e o crescimento econômico, e contribuindo para uma democracia mais robusta.
Ronaldo adota uma abordagem cuidadosa para o empoderamento midiático inovador e o letramento digital em comunidades historicamente negligenciadas pelo poder público e o ecossistema de jornalismo no Brasil. Seus projetos se complementam e se reforçam mutuamente para enfrentar o desafio urgente da desigualdade informacional que afeta populações de territórios que convivem com a ausência de políticas públicas. Eles combinam letramento midiático antirracista e jornalismo de soluções — que reporta a partir das periferias e favelas para evidenciar respostas locais a problemas sociais — com o objetivo de qualificar os hábitos de consumo de notícias destas populações e empoderar comunidades negligenciadas pelo poder público local.
Por meio do letramento midiático antirracista, ele enfrenta o apagamento histórico dos territórios de periferias e favelas, subrepresentação de populções negras e periféricas no jornalismo, estereótipos étnico-raciais, o distanciamento das populações de baixa renda do consumo de notícias de interesse público, a desonfiança no jornalismo e na democracia, transformando a cultura de desenvolvimento local dos territórios e os saberes afroindígenas em plataforma de conhecimento para reimaginar como enfrentar a desigualdade no acesso à informação, com foco em vozes negras, indígenas, LGBTQIA+ e outros grupos historicamente sub-representados. Por meio da utilização do jornalismo de soluções, Ronaldo não apenas educa o público sobre o consumo de mídia, como também destaca respostas práticas às questões socioambientais das comunidades, criando redes de agentes locais de transformação.
Uma inovação central na estratégia de Ronaldo é o uso de totens digitais (painéis eletrônicos autônomos) combinados com ferramentas de software de distribuição de notícias integradas com inteligência artificial, para combater a desinformação. Essa iniciativa permite a circulação de notícias confiáveis e relevantes para o público e para suas comunidades específicas. A abordagem garante que territórios com acesso limitado a internet e notícias locais recebam conteúdos personalizados e pertinentes sobre temas sociais e participação cidadã, contribuindo para decisões mais informadas e, consequentemente, para o fortalecimento do engajamento cívico. A proposta de Ronaldo conecta dois elementos fundamentais: a produção jornalística a partir das periferias e a oferta de informação acessível a públicos amplos por meio de totens comunitários estrategicamente posicionados. Trata-se de uma abordagem prática, inovadora e direta, com grande potencial para transformar a maneira como as comunidades mais vulnerabilizadas do Brasil consomem e se relacionam com as notícias.
Olhando para o futuro, Ronaldo planeja expandir e escalar suas iniciativas para alcançar mais comunidades em todo o Brasil. Em última instância, seu trabalho não apenas transforma o ecossistema midiático, como também defende mudanças nas políticas públicas que sustentem práticas de comunicação mais inclusivas. Ao enfrentar questões sistêmicas que afetam comunidades historicamente negligenciadas pelo poder público, suas iniciativas contribuem para a construção de uma sociedade mais equitativa e bem informada no Brasil.
O problema
A desigualdade informacional no Brasil não pode ser compreendida apenas como um problema de acesso à internet ou de disponibilidade de tecnologias digitais. Trata-se de um fenômeno estrutural que combina desigualdades históricas de renda, raça, território, escolaridade e representação cultural com as transformações contemporâneas do ecossistema informacional, profundamente mediado por plataformas digitais e algoritmos. Nesse contexto, populações negras, periféricas, indígenas e LGBTQIAP+ encontram-se entre os grupos mais impactados por um conjunto de barreiras que limitam o acesso a notícias de interesse público, à capacidade de interpretar criticamente informações e à participação plena na esfera pública digital.
Um dos elementos mais evidentes dessa desigualdade é a existência de amplas áreas do país sem cobertura jornalística consistente. Os chamados “quase desertos” de notícias no Brasil são municípios que possuem apenas um ou dois veículos de comunicação locais e, portanto, correm alto risco de se tornarem desertos completos, ou seja, territórios sem qualquer cobertura jornalística estruturada. Em 2025, o número de quase desertos alcançou 1.808 municípios, enquanto cerca de 2.504 cidades já são classificadas como desertos de notícias, segundo dados do Atlas da Notícia. Essa realidade revela uma profunda concentração da infraestrutura jornalística nas regiões de maior dinamismo econômico e demográfico, deixando vastos territórios à margem da produção sistemática de informações de interesse público.
Essa dinâmica se reproduz também dentro das grandes cidades brasileiras. Nas favelas do país, onde vivem cerca de 16,4 milhões de pessoas segundo o IBGE, além da infraestrutura digital frequentemente precária que dificulta o acesso estável à internet e a plataformas digitais de notícias, também não existe uma infraestrutura consolidada de veículos comunitários.
As iniciativas que atuam nestes territórios enfrentam problemas estruturais de sustentabilidade e permanência no território devido a inexistência de políticas públicas que apoiam o seu trabalho. Por outro lado, essas organizações de jornalismo no território resistem a esse problema devido a ausência de pequenas, médias ou grandes empresas jornalísticas comprometidas em informar a população desses territórios. As redações das grandes empresas permanecem concentradas em centros urbanos com maior poder econômico e costumam se deslocar para esses territórios apenas em situações específicas, muitas vezes relacionadas a acontecimentos considerados excepcionais ou de interesse momentâneo das agendas editoriais tradicionais.
Diante desse problema estrutural, veículos de comunicação independentes e organizações de educação midiática passaram a desempenhar um papel fundamental na produção e circulação de informações em territórios de periferias e favelas. Essas iniciativas atuam de forma coletiva e conectadas às demandas locais, buscando não apenas informar, mas também formar a população, por meio de processos de letramento midiático e fortalecimento de práticas comunitárias de produção de conteúdo. Em muitos casos, esses atores se tornam as principais — ou únicas — fontes de informação de interesse público disponíveis para os moradores. Ainda assim, sua atuação enfrenta limitações significativas decorrentes da escassez de recursos financeiros, tecnológicos e institucionais, o que restringe a capacidade de expansão e sustentabilidade dessas iniciativas.
Esse cenário territorial de desertos informacionais se articula com profundas desigualdades no acesso e no uso das tecnologias digitais. De acordo com dados da pesquisa TIC Domicílios 2023, realizada pelo Cetic.br, o Brasil apresenta um quadro de forte desigualdade digital. Cerca de 92 milhões de pessoas negras e pardas — que representam a maioria da população brasileira e, em grande parte, são mulheres de baixa renda — dependem exclusivamente do telefone celular para acessar a internet. O acesso exclusivamente móvel, frequentemente associado a planos de dados limitados e conexões instáveis, restringe significativamente as possibilidades de navegação, de produção de conteúdo e de verificação de informações.
Além disso, apenas 37% dessa população declara verificar a veracidade das informações consumidas em plataformas digitais. Em termos absolutos, isso significa que mais de 50 milhões de pessoas em situação de exclusão social encontram-se potencialmente mais vulneráveis à desinformação e às fake news. Essa vulnerabilidade não pode ser interpretada como resultado de uma suposta falta de interesse ou responsabilidade individual, mas sim como consequência direta de um ambiente informacional desigual, no qual o acesso à educação midiática e às ferramentas de verificação de informações não é distribuído de forma equitativa.
O problema torna-se ainda mais complexo quando se considera o crescente afastamento de parcelas da população em relação ao jornalismo profissional. De acordo com o Digital News Report de 2024, produzido pelo Reuters Institute, a proporção de brasileiros que afirmam evitar notícias chegou a 47%. O mesmo estudo indica que 51% da população utiliza redes sociais como principal fonte de informação. Esse deslocamento do consumo informacional para ambientes dominados por plataformas digitais altera profundamente a lógica de circulação de notícias, uma vez que o acesso à informação passa a ser mediado por algoritmos que priorizam conteúdos com maior potencial de engajamento, e não necessariamente aqueles que possuem maior relevância pública.
As transformações geracionais também reforçam essa tendência. Segundo o relatório “Desigualdades Informativas: Entendendo os caminhos informativos dos brasileiros na internet”, publicado em 2024 pelo Aláfia Lab, pessoas com idade entre 25 e 34 anos demonstram preferência ainda maior pelas redes sociais como principal meio de informação: 61,3% dessa faixa etária afirma se informar prioritariamente por essas plataformas, enquanto o acesso direto a portais de notícias se torna cada vez menos frequente. Essa mudança de hábitos informacionais contribui para fortalecer ambientes digitais fragmentados, nos quais diferentes grupos sociais passam a consumir conteúdos distintos, frequentemente organizados por bolhas algorítmicas.
A ausência de políticas públicas estruturantes de educação midiática agrava esse cenário. No Brasil, ainda não existem políticas nacionais capazes de universalizar o direito ao letramento midiático e informacional da população. Como resultado, grande parte dos cidadãos precisa desenvolver de forma autônoma as habilidades necessárias para interpretar criticamente conteúdos digitais, identificar fontes confiáveis e compreender os mecanismos de circulação de informações nas plataformas.
Os efeitos dessa lacuna tornam-se visíveis quando se analisam os resultados de pesquisas internacionais. Um relatório divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2024 colocou o Brasil na última posição entre 21 países avaliados em relação à capacidade de identificação de notícias falsas. O estudo, denominado Truth Quest (“Busca pela Verdade”), utilizou uma metodologia gamificada com mais de 40 mil participantes para medir a habilidade dos usuários em distinguir conteúdos verdadeiros de informações manipuladas. Os resultados indicam que, no contexto brasileiro, existe uma elevada confiança em conteúdos recebidos por meio de redes sociais, o que favorece a circulação de desinformação em larga escala.
Essa relação entre desigualdade informacional e vulnerabilidade à desinformação tem implicações diretas para o funcionamento da democracia. O acesso desigual à informação de qualidade limita a capacidade dos cidadãos de participar de debates públicos bem-informados, de avaliar políticas públicas e de exercer plenamente seus direitos democráticos. Estudos da própria OCDE indicam que a dificuldade em distinguir a veracidade das notícias representa um risco significativo para a cidadania informada e para a estabilidade de instituições democráticas.
Ao mesmo tempo, pesquisas do Reuters Institute mostram que a desconfiança em relação ao jornalismo tradicional não está distribuída de forma homogênea na sociedade. Entre populações negras em grandes centros urbanos brasileiros, como Salvador e São Paulo, essa desconfiança está frequentemente associada à sub-representação racial nas redações e à cobertura midiática que reproduz estereótipos ou narrativas criminalizantes. A ausência de jornalistas negros em posições de destaque contribui para a construção de narrativas que não refletem plenamente as experiências e perspectivas dessas comunidades, alimentando na audiência composta por pessoas negras e moradoras das periferias e favelas o ceticismo em relação à veracidade e à legitimidade das notícias produzidas pelos grandes veículos.
As gerações mais jovens são particularmente impactadas por essa combinação de desigualdades estruturais. Sem acesso adequado à internet e sem as habilidades necessárias para navegar de forma crítica no ambiente digital, muitos jovens permanecem excluídos de oportunidades educacionais, profissionais e cívicas que se tornaram centrais na sociedade contemporânea. Essa exclusão informacional limita não apenas o desenvolvimento individual, mas também a capacidade coletiva dessas comunidades de participar ativamente da vida pública.
Entre os grupos mais vulneráveis à desinformação também se encontra a população idosa. De acordo com dados da PNAD Educação, apenas 59% dos brasileiros com 60 anos ou mais utilizam a internet, enquanto cerca de 16% dessa população é analfabeta. Essa combinação de limitações educacionais e acesso restrito às tecnologias digitais aumenta a exposição desse grupo a golpes, conteúdos enganosos e campanhas de desinformação. Além disso, a circulação de informações falsas pode comprometer o acesso a orientações confiáveis sobre saúde pública, como demonstrado durante campanhas de vacinação contra a COVID-19, nas quais a disseminação de boatos contribuiu para reduzir a adesão de parte da população.
A estrutura do atual ecossistema digital também desempenha um papel decisivo na ampliação dessas desigualdades. As plataformas digitais, controladas majoritariamente por grandes empresas globais de tecnologia, concentram poder sem precedentes sobre a distribuição de informações. Esses ambientes não apenas intermedeiam o acesso a notícias, mas também influenciam oportunidades profissionais, serviços públicos e formas de interação social. Os algoritmos utilizados por essas plataformas tendem a priorizar conteúdos sensacionalistas ou polarizadores, capazes de gerar maior engajamento, ao mesmo tempo em que reduzem a visibilidade de produções jornalísticas independentes ou de narrativas críticas.
Esse modelo econômico também impacta diretamente a sustentabilidade do jornalismo. Ao monopolizar a publicidade digital e se apropriar de conteúdos jornalísticos sem mecanismos robustos de compensação financeira, as plataformas reduzem as receitas disponíveis para organizações de mídia, especialmente para veículos locais e independentes. Como consequência, comunidades já marginalizadas enfrentam ainda mais dificuldades para construir ecossistemas informacionais diversos e sustentáveis.
Além dos impactos políticos e econômicos, a transformação digital também possui dimensões culturais profundas. A crescente influência de algoritmos globais na mediação das experiências digitais das novas gerações pode contribuir para o enfraquecimento de práticas culturais tradicionais. Em territórios periféricos, onde o acesso a conteúdos digitais muitas vezes ocorre por meio de plataformas dominadas por grandes corporações internacionais, as referências culturais locais podem ser progressivamente ofuscadas por padrões globais de consumo informacional e entretenimento.
Diante desse cenário, torna-se fundamental promover uma transição no modelo de comunicação que valorize os saberes, as narrativas e as experiências de comunidades negras, indígenas, quilombolas e LGBTQIAPN+. A construção de um ecossistema midiático mais regenerativo e inclusivo passa necessariamente pelo fortalecimento de iniciativas comunitárias de comunicação, pela ampliação de políticas públicas de educação midiática e pela criação de infraestruturas digitais que permitam a produção e circulação de conteúdos de interesse público em escala territorial.
Enfrentar as desigualdades informacionais exige, portanto, uma combinação de estratégias estruturais. Entre elas estão o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à universalização do letramento midiático e digital, o fortalecimento do jornalismo de interesse público em territórios marginalizados e o incentivo a tecnologias que ampliem a autonomia informacional das comunidades. Essas medidas são essenciais para a construção de um ecossistema digital mais equitativo, no qual diferentes grupos sociais possam participar plenamente da vida informacional da sociedade.
Nesse contexto, iniciativas que articulam formação jornalística, educação midiática e valorização da identidade cultural assumem papel estratégico. Tecnologias sociais voltadas à formação de produtores de conteúdo e agentes de integridade da informação podem contribuir para fortalecer capacidades locais de produção e circulação de conhecimento, conectando a prática jornalística à valorização dos territórios, da herança cultural e das experiências vividas por comunidades historicamente marginalizadas.
Ao mesmo tempo, o avanço de novas tecnologias, como a inteligência artificial, introduz novas camadas de desigualdade no ecossistema informacional. Dados da pesquisa TIC Domicílios 2025 indicam que cerca de 50 milhões de brasileiros já utilizam agentes de inteligência artificial. No entanto, a distribuição desse acesso é profundamente desigual. Entre pessoas da classe A, 69% já utilizam ferramentas de IA generativa, enquanto nas classes D e E esse percentual cai para 16%. A diferença também se manifesta no nível educacional: 59% das pessoas com ensino superior utilizam essas tecnologias, contra apenas 17% entre aqueles com ensino fundamental.
Esse contraste evidencia um padrão estrutural recorrente na história das tecnologias digitais no Brasil: quanto maior a renda e a escolaridade, maior a capacidade de acesso e apropriação de novas ferramentas. Quanto mais vulnerável a posição social de um indivíduo, menores são as oportunidades de utilizar essas tecnologias para fins educacionais, profissionais ou informacionais. Entre estudantes, por exemplo, 86% afirmam utilizar ferramentas de inteligência artificial para pesquisas e trabalhos acadêmicos, enquanto entre aqueles que não utilizam a tecnologia a principal barreira apontada é a falta de habilidades para operá-la, mencionada por 65% dos respondentes com menor escolaridade.
Portanto, a desigualdade informacional no Brasil não pode ser analisada isoladamente de outras formas de exclusão social. Ela se manifesta na distribuição desigual da infraestrutura jornalística, no acesso desigual às tecnologias digitais, na ausência de políticas públicas de educação midiática e na concentração de poder nas plataformas digitais, que colocam em risco o direito à comunicação e a informação previstos no artigo cinco da Constituição Federal. Ao mesmo tempo, seus efeitos recaem de forma desproporcional sobre populações historicamente marginalizadas, ampliando as distâncias já existentes entre diferentes grupos sociais no acesso ao conhecimento, à participação democrática e às oportunidades de desenvolvimento. Somente por meio de políticas estruturais e da valorização de iniciativas comunitárias de comunicação será possível construir um ambiente informacional verdadeiramente plural, inclusivo e democrático.
A estratégia
O trabalho de Ronaldo está abrindo caminho para um futuro mais equitativo e inclusivo nas periferias e favelas brasileiras, por meio do letramento midiático, do jornalismo de soluções socioambientais e da inovação tecnológica local voltada a qualificação dos hábitos de consumo de notícias e empoderamento de populações desses territórios.
Seus esforços começaram com a escola de jornalismo “Você Repórter na Periferia”, criada para jovens de 16 a 25 anos que tenham concluído ou estejam cursando o ensino médio ou o primeiro ano do ensino superior. A formação combina módulos teóricos e oficinas práticas de escrita jornalística, fotografia, reportagem em vídeo, técnicas de entrevista, produção para redes sociais e aprendizado experiencial com comunicadores e lideranças culturais. O programa também inclui um módulo de inclusão produtiva que propõe a imersão prática nas periferias e favelas da cidade de São Paulo, para gerar trabalho e renda para os jovens jornalistas formados. Muitos participantes seguem carreiras na área de mídia e comunicação, frequentemente ingressando na graduação em jornalismo ou áreas afins, e alguns passam a integrar a equipe do Desenrola e Não Me Enrola — metade da equipe atual iniciou sua trajetória dessa forma.
Os textos produzidos pelos estudantes são publicados pelo Desenrola e Não Me Enrola, que surgiu em 2013 como um blog e se consolidou como portal de notícias em 2017. Com essa transformação, sua linha editorial foi ampliada para abordar não apenas atividades culturais, mas também as complexidades de viver e trabalhar nas periferias de São Paulo. Atualmente, a plataforma recebe mais de 20 mil visitas mensais de usuários de plataformas digitais, com conteúdos produzidos por jovens sobre temas relevantes para suas comunidades. Com o uso do software e hardware da Território da Notícia, os conteúdos jornalísticos produzidos pelos jovens comunicadores do Você Repórter da Periferia alcançam mais de 100 mil pessoas por mês sem depender do uso de redes sociais.
O Desenrola e Não Me Enrola centra esforços em combater as desigualdades informacionais, como os desertos de informação, analfabetismo midiático e a segregação digital, que alimentam novas formatos da presença do racismo no cotidiano dos moradores de periferias e favelas, utilizando o jornalismo de soluções e a educação midiática como aliados para promover a igualdade racial e combater narrativas que geram barreiras para acessar direitos sociais, amplificam a desinformação comunitária e geram estereótipos sobre as periferia e favelas no Brasil.
Por meio dos programas de formação de Ronaldo e de redes de jornalistas e comunicadores que ele articula em diversos estados de todas as regiões do país, jovens jornalistas negros, indígenas, quilombolas e LGBTQIA+ desenvolvem ferramentas para expressar suas perspectivas, ressignificar narrativas midiáticas e atuar em um ambiente que valoriza a produção que parte de territórios empobrecidos pela ausência programada de políticas públicas. As reportagens utilizam o jornalismo de soluções, uma abordagem rigorosa, baseada em evidências, que analisa respostas a problemas sociais e avalia como elas funcionam ou por que falham. Ao amplificar vozes sub-representadas e defender práticas midiáticas mais inclusivas, o Desenrola e Não Me Enrola se tornou um espaço que vai além de denúncia, noticiando a ação e transformação, demonstrando como o protagonismo de base, a análise histórica e a construção coletiva de narrativas podem impulsionar mudanças sociais e afirmar a relevância das histórias que emergem das periferias e favelas brasileiras.
Embora a produção desses conteúdos tenha contribuído para dar visibilidade a desigualdades frequentemente ignoradas, Ronaldo identificou no ano de 2017 que as redes sociais e as plataformas das grandes empresas de tecnologia não garantiam a distribuição acessível dessas informações. Essa constatação motivou a criação do Território da Notícia, que antes de se tornar uma grande referência nacional na distribuição de notícias, tinha o nome de Info Território, uma ideia que foi apresentada em editais de incentivo à inovação tecnológica da prefeitura de São Paulo, mas não foi reconhecida como uma iniciativa com potencial de impacto.
O impulso de Ronaldo por transformação social o levou a continuar explorando e pesquisando soluções tecnológicas para combater a desinformação, a fim de garantir que informações confiáveis cheguem a populações historicamente sub-atendidas na mídia tradicional. A proposta de criar uma plataforma digital que conecta veículos independentes, jornalistas e comunicadores de comunidades periféricas com as populações do território permaneceu viva, mesmo após não ganhar o edital da prefeitura de São Paulo. Ao combinar tecnologia avançada com jornalismo de base comunitária, a plataforma enfrenta desigualdades informacionais e garante que informações confiáveis cheguem a populações historicamente sub-atendidas.
A abordagem inovadora de Ronaldo, hoje co-criada, gerida, impulsionada e liderada pelo Desenrola E Não Me Enrola em parceria com o Periferia em Movimento, outro veículo de jornalismo independente das periferias que sempre esteve conectado o trabalho do jornalista, foi reconhecida em 2019 pelo Google News Initiative Innovation Challenge na América Latina, como uma das 30 iniciativas mais inovadoras da América Latina, viabilizando recursos para o desenvolvimento e a expansão do Território da Notícia, como uma tecnologia implementada em parceria com uma rede de veículos de comunicação parceiros, como Alma Preta, Jornal Embarque no Direito e Preto Império.
O trabalho de Ronaldo à frente destas iniciativas também lhe rendeu importantes reconhecimentos, incluindo o título de primeiro jornalista negro a receber o Grande Prêmio Sebrae de Jornalismo, na categoria Jornalista Empreendedor, em 2022. Com mais de uma década de experiência em projetos sociais de impacto, Ronaldo se consolidou como uma referência em letramento midiático e fortalecimento do jornalismo de interesse público no cotidiano dos moradores das periferias e favelas de São Paulo, utilizando tecnologias educacionais e informacionais como ferramenta de transformação social também em outros territórios nacionais.
Seu trabalho evidencia a importância de tecnologias descentralizadas para empoderar comunidades empobrecidas pela ausência programada de políticas públicas, permitindo que superem narrativas midiáticas dominantes e construam suas próprias histórias. Ao fortalecer o jornalismo local, comunicadores e moradores a ampliar o acesso a ferramentas de letramento midiático, Ronaldo segue desafiando estruturas de poder no ecossistema da mídia e contribuindo para uma sociedade brasileira mais informada e equitativa.
Hoje, a Território da Notícia utiliza totens digitais interativos que combinam tecnologia e soluções comunitárias para enfrentar a desinformação, exclusão digital e as desigualdades informacionais nas periferias e favelas como o analfabetismo midiático e os desertos de informação. Com o apoio de inteligência artificial supervisionada por editoria humana, os totens selecionam e exibem conteúdos relevantes, confiáveis e culturalmente adequados, ajustados às necessidades locais. Mas para os próximos 10 anos, os planos liderados por Ronaldo, Desenrola E Não Me Enrola e a Periferia Em Movimento são de transformar essa ideia inovadora em uma infraestrutura pública digital para o jornalismo de interesse público, para garantir soberania informacional para a população e a democracia brasileira, a fim de transformar o Brasil no primeiro país do Sul Global com uma tecnologia desse porte.
Os totens são instalados em locais de grande circulação, como comércios de bairro e pontos comunitários, funcionando como pontos de acesso a notícias em tempo real, conteúdos educativos e jornalismo local, inclusive em áreas com conectividade limitada à internet. Eles auxiliam os moradores a se manterem informados sobre temas políticos, de saúde e sociais, ao mesmo tempo em que oferecem uma alternativa à negligência ou à distorção das realidades das favelas pela mídia tradicional. O Território da Notícia opera por meio de um modelo centrado na comunidade, com 15 totens digitais em 10 distritos de São Paulo, onde 15 veículos de comunicação independente, além do Desenrola E Não Me Enrola, utilizam a tecnologia para distribuir notícias para a população dos territórios, alcançando aproximadamente 650 mil pessoas por mês com base no volume de circulação de público nestes estabelecimentos. A curadoria e distribuição de conteúdo é diversa e realizada de forma colaborativa, pois inclui a participação ativa de outros veículos que compõem a rede de parceiros e ainda veicula as produções de jornalismo elaboradas pelos jovens participantes do programa Você Repórter na Periferia.
O Território da Notícia separa claramente as responsabilidades entre produção editorial e distribuição. Os veículos parceiros mantêm autonomia editorial, enquanto o Território da Notícia se concentra na distribuição do conteúdo e na mensuração de impacto. A seleção de parceiros segue critérios rigorosos: os veículos devem dialogar tanto com o poder público quanto com moradores das periferias, tratando estes últimos como protagonistas e fontes especializadas em temas de interesse público. Não podem produzir narrativas racistas, misóginas, anti LGBT, sexistas ou antidemocráticas, nem promover agendas de partidos políticos. Os parceiros publicam exclusivamente conteúdos originais, priorizando entrevistas com moradores, agentes de transformação, lideranças comunitárias e gestores públicos.
A Ponte Jornalismo exemplifica essa missão ao aderir consistentemente a esses princípios. O veículo atua com foco na cobertura de direitos humanos, amplificando vozes marginalizadas por opressões de classe, raça e gênero, e priorizando reportagens originais fundamentadas em entrevistas com moradores e lideranças comunitárias, consolidando se como uma referência em jornalismo inclusivo dentro dessa coalizão.
As organizações parceiras recebem periodicamente pesquisas elaboradas pelo Território da Notícia para identificar os temas de direitos sociais mais urgentes em cada território. Elas utilizam os resultados para orientar suas pautas, enquanto a equipe editorial do Território da Notícia realiza a curadoria de notícias locais, estaduais e nacionais. Os dados levantados indicam que a maioria do público leitor é composta por pessoas negras (54,5%), mulheres (53,3%) e indivíduos com escolaridade até o ensino médio (71%). Antes da implementação dos totens, suas principais fontes de informação eram a televisão (64%), o WhatsApp (51%) e o rádio (33%), com forte preferência por conteúdos em vídeo (84%), seguidos por áudio (60%) e formatos visuais, como fotos e ilustrações (20%). Esses dados orientam a definição dos formatos de conteúdo, garantindo maior aderência e acessibilidade.
Com a disseminação de conteúdo nos totens, os veículos parceiros também passaram a registrar maior visibilidade. Uma pesquisa de linha de base com 500 respondentes revelou que apenas 10% conheciam o Desenrola e Não Me Enrola; após a implementação dos totens, esse índice subiu para 50%, evidenciando o aumento do reconhecimento da marca aliado à ampliação do alcance dos parceiros. Além da exibição de conteúdos jornalísticos personalizados, os totens incorporam pesquisas interativas e enquetes que incentivam os moradores a dialogarem com as informações durante atividades cotidianas, alcançando inclusive pessoas que normalmente não acompanham notícias e oferecendo conteúdo acessível, comunitário e em linguagem clara.
O Território da Notícia também atua como uma ponte entre instituições públicas e as comunidades que elas atendem, servindo como um espaço de divulgação de campanhas de vacinação, mutirões de saúde, inscrições para programas educacionais, entre outros. Sua interface acessível estimula a participação de todas as faixas etárias, incluindo pessoas idosas que enfrentam dificuldades no uso de redes sociais. Ao oferecer navegação simplificada e linguagem clara, os totens ampliam o acesso à informação entre pessoas idosas, sem as barreiras que costumam existir nas plataformas digitais tradicionais.
Nos diferentes territórios, os totens geram formas específicas de engajamento. No Capão Redondo, funcionam como fontes confiáveis durante eventos comunitários. No Campo Limpo, crianças e adolescentes exploram oportunidades educacionais e de trabalho. Pessoas idosas passam a descobrir novas potências dentro de suas comunidades, como a cena local do rap. No Jaraguá, reportagens sobre empreendedores locais inspiram moradores a investir em desenvolvimento pessoal, como a matrícula em cursos gratuitos de inglês. Essas experiências demonstram como o Território da Notícia fortalece vínculos comunitários, amplia o acesso à informação e promove o empoderamento intergeracional.
A abordagem de jornalismo de soluções adotada pela iniciativa captura as realidades locais ao destacar como indivíduos e comunidades respondem a desafios com criatividade e impacto. Quando uma matéria gera identificação, ela ultrapassa o espaço do totem, circula pelas redes sociais e amplia o debate público. Um exemplo disso ocorreu no bairro do Rio Pequeno, quando uma moradora viu uma reportagem sobre o aumento dos preços dos alimentos e o fechamento de uma unidade do Bom Prato no Rio Pequeno. Como integrante do Conselho Municipal de Segurança Alimentar, ela entrou em contato com o Desenrola e Não Me Enrola, que conheceu por meio de um dos totens. Os repórteres investigaram o caso, publicaram a matéria e ela foi repercutida pelo UOL ECOA. Pouco tempo depois, a Secretaria Estadual de Assistência Social tomou conhecimento da situação, o que resultou na abertura de uma nova unidade do Bom Prato no M’Boi Mirim. O que começou com uma moradora lendo uma notícia em um totem público levou a uma ação governamental — um exemplo prático de como os totens podem incentivar a reivindicação de direitos e impactar a ação do poder público.
Entre junho de 2023 e fevereiro de 2024, o Território da Notícia se concentrou na disseminação de conteúdo sobre a crise climática a partir da perspectiva das favelas e periferias de São Paulo. Os totens coletaram relatos sobre alagamentos, calor extremo e qualidade do ar, com 250 mil moradores sendo impactados por essa iniciativa, que contribuiu para a elaboração de pesquisas de percepção e conhecimento da audiência. O percentual de pessoas que desconheciam o impacto do transporte sustentável caiu de 78% para 33%, indicando um aumento do letramento ambiental em comunidades diretamente afetadas pelas mudanças climáticas. Esse conhecimento permitiu que os moradores conectassem questões ambientais às suas escolhas de voto nas eleições municipais. Até 2025, 350 mil pessoas já haviam interagido mensalmente com os conteúdos do Território da Notícia — mais de quatro milhões ao longo de um ano.
No centro da visão de Ronaldo está o desenvolvimento de políticas públicas capazes de responder às demandas da sociedade na era digital. Reconhecido como especialista na articulação entre acesso à informação e novas tecnologias, ele foi convidado pela Secretaria de Comunicação do Governo Federal a integrar um grupo de especialistas em letramento midiático responsável pela elaboração de um Guia de Boas Práticas para políticas públicas relacionadas a direitos digitais e educação midiática. Ronaldo também contribuiu para o guia oficial “Crianças, Adolescentes e Telas: Guia sobre o Uso de Dispositivos Digitais”, que aborda preocupações relacionadas ao uso excessivo ou inadequado de dispositivos digitais por crianças e adolescentes, ao mesmo tempo em que reconhece o potencial positivo da tecnologia para a aprendizagem e o desenvolvimento.
Para crianças e adolescentes em contextos de vulnerabilidade socioeconômica, a desigualdade no acesso a oportunidades de letramento digital cria uma sobreposição de vulnerabilidades: ao mesmo tempo em que enfrentam barreiras para acessar as ferramentas educacionais que as tecnologias proporcionam, esses jovens permanecem expostos a ambientes digitais nocivos, muitas vezes sem orientação ou proteção adequada. Esse cenário evidencia a urgência de políticas públicas que ampliem o acesso equitativo a recursos digitais seguros e educativos, além de fortalecer o letramento digital. Garantir que grupos vulnerabilizados se beneficiem da tecnologia de forma construtiva é fundamental para reduzir desigualdades e proteger seu bem estar.
Em última instância, Ronaldo contribui para a transformação da comunicação, a redução das lacunas informacionais e o fortalecimento de comunidades mais inclusivas e bem-informadas. Ao empoderar populações marginalizadas com informação confiável e promover o letramento midiático crítico, ele atua no enfrentamento da desinformação em contextos de favela e incentiva uma participação responsável e inclusiva no mundo digital.
A pessoa
Ronaldo Matos nasceu no Jardim Ângela, considerado um dos bairros mais violentos de São Paulo durante a década de 90. Lá, enfrentou desde cedo as duras realidades da violência e da pobreza. Criado em uma família de migrantes do Nordeste brasileiro, seus pais valorizavam o trabalho árduo mais do que a educação formal — ingressar na universidade não era, inicialmente, uma prioridade. Seu pai mantinha uma banca de jornais e revistas na comunidade em que Ronaldo cresceu, e esse contato precoce com o jornalismo, por meio da leitura diária de reportagens sobre vizinhos e amigos envolvidos na violência do bairro, despertou nele a curiosidade de olhar para além das narrativas negativas associadas ao seu território, onde ele presenciava a recorrente representação da violência e da exclusão social. Essa experiência despertou seu interesse pelo jornalismo e pela comunicação, impulsionando o desejo de compartilhar histórias positivas de sua comunidade, frequentemente ignoradas pela mídia tradicional. Durante a juventude, o hip hop, o rap e os saraus de poesia também desempenharam um papel central na compreensão de sua identidade negra e na valorização da educação como ferramenta de emancipação.
Apesar da pressão familiar para abandonar os estudos e retornar ao trabalho em fábricas, Ronaldo persistiu em sua formação em jornalismo. Motivado pela escassez de acesso à informação de qualidade em comunidades empobrecidas pela ausência de políticas públicas, fundou o Desenrola e Não Me Enrola em 2013, em parceria com a jornalista Thais Siqueira. Atualmente, muitos dos jovens formados no programa de jornalismo do Desenrola e Não Me Enrola criaram seus próprios projetos de jornalismo periférico, enquanto outros passaram a atuar no setor de comunicação.
O trabalho realizado como liderança do Desenrola levou Ronaldo a realizar diversas palestras e cursos em universidades privadas na cidade de São Paulo, um trabalho que sempre o motivou a seguir em frente por conectar as suas experiências com jovens estudantes de jornalismo que têm a mesmas origem das periferias e favelas, que compõem a sua identidade cultural.
A presença em espaços acadêmicos de formulação de conhecimento é uma agenda constante na jornada de Ronaldo. Como parceiro da Escola de Governança da Internet (EGI), organização ligada ao Comitê Gestor da Internet, ele já circulou em diversas universidades públicas como UNICAMP, Universidade Federal de Pernambuco e Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, realizando aulas para estudantes, pesquisadores e professores baseadas em suas pesquisas e projetos que propõem novos rumos e olhares para pesquisa em centros acadêmicos.
Em 2025, Ronaldo realizou um sonho: ele atuou pela primeira vez como professor universitário realizando um curso sobre os conceitos e práticas do jornalismo independente para a Faculdade Cásper Líbero, primeira entidade acadêmica a criar o curso de jornalismo no Brasil em 1947.
Em 2026, Ronaldo está realizando outro sonho antigo: começou a cursar o mestrado em Ciências da Comunicação na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, para investigar como as desigualdades informacionais estão impactando jornalistas e moradores de periferias e favelas do Brasil em seu projeto de pesquisa.
Olhando para o futuro da sua atuação, Ronaldo almeja transformar o trabalho pioneiro realizado no Brasil em plataforma para atuar em outros países do Sul Global, pois na sua forma de analisar os efeitos das desigualdades informacionais causadas pelas plataformas digitais, países da América Latina, África e Ásia enfrentam desafios semelhantes em comparação com o Brasil e, para ele, criar redes de colaboração com outros jornalistas nesses continentes é fundamental para a sua jornada de transformação sistêmica.
Para consolidar esse sonho, Ronaldo integra hoje a rede de orquestradores de sistemas do Centro de Mudanças Exponenciais Índia e Brasil, uma organização que está conectando lideranças e organizações do Sul Global, a desenvolver de forma aberta e colaborativa novas tecnologias para enfrentar e resolver problemas complexos da sociedade contemporânea.